Financeiro

Faturamento x lucro: por que o restaurante fatura mais e sobra menos

Por Sebastião Lustosa · Sócio-fundador da Bunker Foods
Publicado em · atualizado em · 7 min de leitura

Faturamento mede as vendas realizadas no período; recebimento é o dinheiro que entra na conta. Lucro é o resultado das receitas menos custos, despesas e demais ajustes da competência. Quando o faturamento sobe e o resultado cai, uma hipótese a investigar é esta: a venda nova chegou com margem menor que a venda antiga, por desconto, comissão de aplicativo ou anúncio, e o dono só olhou o total vendido. Compare os períodos pelo mesmo critério e confira também a disponibilidade de caixa.

Uma sequência que merece investigação

Uma expansão pode seguir esta sequência:

  1. O restaurante quer crescer e entra mais forte no aplicativo, ou liga cupom, ou aumenta o anúncio.
  2. O número de pedidos sobe. O faturamento sobe.
  3. Para dar conta, contrata mais um na cozinha, compra mais insumo, às vezes aumenta o horário.
  4. No fim do mês, o saldo é igual ou menor que antes.

Nada disso é erro em si. O erro é medir o sucesso pelo faturamento. Aquisição e execução têm custos diferentes. Comissão de app e entrega podem ocorrer em pedidos de clientes antigos; não são automaticamente CAC. Some a contribuição das vendas e trate mídia e descontos sem dupla contagem. Se esse custo come a maior parte da margem do pedido, você trabalha mais para ganhar o mesmo.

É o que chamamos de crescer em volume e não em resultado. Mais demanda em cima de uma operação com margem apertada só deixa o problema mais caro.

A conta que separa faturamento de lucro

O caminho entre os dois é uma sequência de descontos:

Etapa O que sai
Faturamento bruto ponto de partida
− Deduções de vendas e impostos Descontos, devoluções e tributos, sem repetir o cupom
− Custos variáveis CMV, embalagem, comissão de app, taxa de cartão e entrega
= Margem de contribuição o que cada venda deixa para pagar o fixo
− Custos fixos aluguel, folha, pró-labore, sistemas, contador
− Outros gastos e ajustes Mídia ainda não contabilizada, depreciação, despesas financeiras e tributos sobre o resultado quando devidos
= Resultado líquido o saldo após todos os ajustes

O guia prático de precificação do Sebrae trata a margem de contribuição como o valor que cada venda gera independente dos gastos fixos, porque estes não variam com o volume. É essa linha que explica por que vender mais nem sempre ajuda.

A cartilha de margem de contribuição do Sebrae explica que essa sobra ainda cobre custos fixos. Não adote um percentual de lucro como regra universal. Para apurar resultado, o art. 187 da Lei 6.404/1976 ilustra a distinção entre receitas ganhas, gastos incorridos e sua realização em dinheiro; a lei tem âmbito das sociedades por ações, e o contador define as normas aplicáveis ao restaurante. Veja também margem de lucro.

Como o crescimento pode piorar o lucro

Exemplo hipotético: um restaurante vende R$ 60.000 por mês, quase tudo no salão e no WhatsApp, com margem de contribuição de 50%. Sobram R$ 30.000 para pagar R$ 24.000 de fixo. Lucro: R$ 6.000.

Ele passa a vender mais R$ 30.000 por mês no aplicativo, com cupom. Nesse canal, somando comissão, cupom e embalagem extra, a margem de contribuição cai para 20%. A venda nova deixa R$ 6.000. Para atender, contrata mais uma pessoa, e o fixo sobe R$ 4.000.

Resultado: faturamento de R$ 90.000, contribuição de R$ 36.000, fixo de R$ 28.000. Resultado simplificado: R$ 8.000. O faturamento subiu 50% e o resultado subiu R$ 2.000; a margem sobre receita caiu de 10% para aproximadamente 8,89%. Se o custo fixo adicional fosse R$ 7.000, o resultado cairia a R$ 5.000. Esses saldos pressupõem que mídia e todos os demais gastos relevantes estejam contemplados; sem isso, não são lucro líquido.

Os números são hipóteses para demonstrar a conta. Venda com margem de contribuição baixa precisa de muito volume para pagar qualquer custo fixo novo.

Onde o dinheiro costuma escapar

Caixa cheio não é lucro

Outro motivo de confusão: o dinheiro na conta. Segundo a página de pagamento do iFood Parceiros, o prazo padrão de repasse é de até 4 semanas. Isso significa que o caixa de hoje reflete vendas de semanas atrás, e as vendas de hoje só aparecem lá na frente.

Na prática, o dono olha a conta, vê dinheiro, sente que está indo bem. Ou olha, vê pouco, e acha que está no prejuízo quando não está. Nenhum dos dois diz nada sobre lucro. Para isso, o fluxo de caixa e o DRE precisam andar separados.

Como diagnosticar no seu restaurante

  1. Separe o faturamento por canal. Salão, delivery próprio, iFood, outros apps.
  2. Calcule a margem de contribuição de cada canal. Preço médio menos CMV, embalagem, comissão, taxa de pagamento, cupom e entrega.
  3. Compare com o período antes do crescimento. Qual canal cresceu? Ele tem margem maior ou menor que a média?
  4. Liste o que entrou de custo fixo novo desde então.
  5. Feche o DRE dos dois períodos e veja onde o lucro mudou.

Separe efeitos de preço, volume, mix, custo unitário e capacidade. Compare consumo com compras: um estoque maior pode reduzir o caixa sem virar despesa inteira do período. Dívidas e retiradas também podem diminuir o saldo mesmo quando o resultado da operação melhora.

Um teste rápido antes de qualquer planilha

Se você não tem os números organizados, comece por uma pergunta: quanto sobra, em reais, de um pedido médio em cada canal depois de pagar insumo, embalagem, comissão, taxa e cupom? Faça a conta na mão para o seu item mais vendido. Inclua impostos e entrega custeada pelo restaurante. Não use metade da margem como limite universal: compare contribuição total, capacidade ocupada e custo para trazer pedidos adicionais.

O que fazer depois do diagnóstico

Ao fechar o mês, mantenha três visões: vendas, resultado por competência e fluxo de caixa por vencimento. Uma entrada de empréstimo aumenta o saldo e a dívida, sem ser receita de venda. Amortizar o principal reduz caixa e dívida, sem ser despesa da DRE; juros têm tratamento separado.

Confira descontos, reembolsos e taxas no mesmo período das vendas, inclusive ajustes que chegam no repasse seguinte. Depois registre a decisão e suas hipóteses: preço a revisar, desperdício a medir ou campanha a testar. A contribuição por canal ajuda a localizar o problema; o resultado completo e o caixa dizem se a proposta cabe na operação.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre faturamento e lucro?

Faturamento é tudo o que o restaurante vendeu no período. Lucro considera receitas e gastos da competência, incluindo insumos, comissões, impostos, folha, aluguel e demais despesas, incluindo o pró-labore do dono.

Por que meu faturamento subiu e o lucro caiu?

Uma hipótese é que a venda adicional veio com margem de contribuição menor, por desconto, comissão de app ou anúncio, ou exigiu custo fixo novo. Compare a margem por canal antes e depois do crescimento.

Como saber se o restaurante dá lucro?

Feche a DRE por competência, com deduções, CMV e demais custos e despesas, sem dupla contagem. Inclua pró-labore devido e ajustes financeiros, depreciação e tributos aplicáveis antes de chamar o saldo de lucro líquido.

Ter dinheiro em caixa significa ter lucro?

Não. Caixa depende de quando o dinheiro entra e sai. Um restaurante pode ter caixa por receber antes de pagar e estar no prejuízo, ou ter lucro e faltar caixa por esperar repasse.

Fontes consultadas

Taxas, regras de plataformas e normas mudam. Confira sempre a versão atual na fonte oficial antes de decidir.

Leia também