Precificação

Precificação para padaria e confeitaria: por unidade e por quilo

Por Sebastião Lustosa · Sócio-fundador da Bunker Foods
Publicado em · 8 min de leitura

Para precificar padaria e confeitaria, calcule o custo pela fornada ou pela receita inteira e divida pelo que sai pronto, seja em unidades ou em quilos. Concilie o que foi vendido, ficou em estoque, virou outro produto ou foi descartado, evitando contar a mesma perda duas vezes. Não presuma uma margem menor no pão e maior na confeitaria: compare contribuição, volume e ocupação do forno.

Duas formas de vender, duas contas

Padaria e confeitaria convivem com dois modelos de preço no mesmo balcão.

A base é a mesma: a receita. O que muda é o divisor. Na venda por quilo, você divide o custo da receita pelo peso pronto. Na venda por unidade, pelo número de unidades que saem com peso padrão.

Custo da receita, não do ingrediente solto

  1. Liste todos os ingredientes da receita com a quantidade usada e o custo atual do quilo ou litro.
  2. Inclua os itens pequenos. Melhorador, fermento, óleo para untar, açúcar de polvilhar, papel manteiga, forminhas.
  3. Pese o resultado depois de assado. Massa perde água no forno. O peso da massa crua não é o peso que você vende.
  4. Divida o custo total pelo peso pronto ou pelas unidades.

Exemplo hipotético, fornada de pão francês: os ingredientes custam R$ 45 e a massa crua pesa 30 kg. Depois de assados, os pães pesam 25 kg. O custo por quilo pronto é de R$ 1,80. Se a conta usasse o peso cru, sairia R$ 1,50, e a diferença viraria margem que não existe.

A cartilha de CMV da Abrasel recomenda comparar o custo teórico das fichas com o consumo real do estoque. Na padaria, ela pede conciliação de receita, custos e inventário. Unidade errada, estoque de preparações e consumo interno também podem explicar a diferença, sem provar excesso de recheio ou perda física.

A sobra do dia entra no preço

Registre a destinação da produção não vendida. Se houver reaproveitamento seguro e previsto no processo, o novo produto precisa de ficha e critério de custo; produto impróprio não deve ser transformado para recuperar dinheiro. Descarte e transferência de custo são coisas diferentes.

  1. Registre por duas a quatro semanas quanto sobra de cada produto no fim do dia.
  2. Separe o que foi reaproveitado (e virou outro produto com ficha própria) do que foi descartado.
  3. Calcule o custo do descarte e divida pela quantidade vendida no período.
  4. Some esse valor ao custo unitário ou ao custo por quilo.

Exemplo hipotético: a padaria produz 100 kg de pão por dia e vende 92 kg. Dos 8 kg de sobra, 5 kg viram farinha de rosca e 3 kg são descartados. A R$ 1,80 o quilo, o descarte custa R$ 5,40 por dia. Dividido pelos 92 kg vendidos, acrescenta cerca de R$ 0,06 ao custo de cada quilo.

O impacto depende de custo, volume e destinação de cada receita, não apenas da categoria. Investigue causas antes de incorporar permanentemente a perda ao preço. O texto sobre desperdício de alimentos traz métodos para reduzir a perda antes de repassá-la.

Do custo ao preço

Com o custo unitário ou por quilo, inclusive a perda, aplique os custos variáveis do canal: imposto, taxa da maquininha, embalagem e, no delivery, comissão do aplicativo ou entrega. O que sobra é a margem de contribuição, que o Sebrae explica como a parte da venda que cobre os custos fixos e forma o lucro.

Produtos de comparação

Se os clientes usam algum item como referência de preço, acompanhe o que comparam e a contribuição do pedido completo. Preço conhecido pode influenciar a decisão, mas não prova que a categoria deva ter margem menor ou atraia visita diária.

Produtos de margem

Doces finos, tortas, bolos decorados, pães especiais, salgados assados de receita própria e encomendas. Confira ingredientes, acabamento, mão de obra e ocupação do recurso limitado. Diferenciação e encomenda não garantem preço maior aceito nem lucro; teste a proposta e a contribuição.

Por quilo ou por unidade: quando usar cada um

Para pão francês ou de sal, há uma regra específica: a Portaria Inmetro 181/2021, arts. 1º a 3º, exige venda somente por peso, preço por quilo próximo ao balcão e facilmente visível, com dígitos de altura mínima de 5 cm. A balança deve ter menor divisão de até 5 g e indicar peso e preço a pagar. Não estenda a liberdade de escolher venda por unidade a esse produto.

Seja qual for o modelo permitido, o preço precisa estar visível. A Lei 10.962/2004 regula a oferta e as formas de afixação de preços ao consumidor. O art. 2º exige informação legível do preço à vista; o art. 2º-A exige também preço por unidade de medida na venda fracionada em pequenas quantidades, com exceção de medicamentos. Pelo art. 5º, divergência entre sistemas de preço do mesmo produto favorece o menor. O Decreto 5.903/2006, arts. 2º a 5º e 8º, detalha visibilidade e o uso de relação de preços quando impossível a afixação prevista. Na venda a peso, confira equipamento, tara e unidade da tabela junto do órgão metrológico competente.

Linha de maior margem para divulgar

Aqui entra a escolha que mais pesa no marketing. Teste quais ofertas trazem demanda adicional com contribuição suficiente, sem concluir que pão sempre atrai menos que bolo ou kit.

O critério que usamos para escolher a linha de divulgação:

  1. Margem em reais alta por venda. Não o percentual isolado.
  2. Imagem representativa. Corte da torta, recheio aparecendo, vitrine cheia. A imagem não substitui a medição de pedidos e contribuição.
  3. Produção que escala. Se o post funcionar, você precisa entregar mais sem atrasar o pão das 6h.
  4. Encomenda ou compra planejada. Bolos de aniversário, kits de festa e cestas de café podem favorecer produção programada, mas mudanças, cancelamentos e lotes mínimos continuam exigindo controle.

Monte a tabela de margens, marque os produtos que passam nos quatro filtros e concentre neles as fotos, os posts e eventuais anúncios. Acompanhe também contribuição e demanda dos produtos de comparação antes de alterar sua posição.

Passo a passo para revisar sua tabela

  1. Monte a ficha de cada receita com o custo atual dos ingredientes.
  2. Pese o resultado assado e calcule custo por quilo ou por unidade.
  3. Meça a sobra por produto e some ao custo.
  4. Aplique os custos variáveis de cada canal.
  5. Separe produtos de comparação e produtos de margem.
  6. Ajuste preço onde a margem ficou abaixo do que você definiu.
  7. Escolha a linha de divulgação com os quatro filtros.
  8. Revise sempre que farinha, manteiga, ovos, açúcar ou chocolate mudarem de preço.

Uma padaria pode vender muito e lucrar pouco quando a contribuição total não cobre sua estrutura. Use a tabela para escolher a divulgação e confira o resultado do conjunto. O artigo sobre como abrir cafeteria e padaria complementa a parte de estrutura.

Forno, decoração e encomenda têm custos diferentes

A ficha de ingredientes não representa sozinha o custo completo de produção. O guia do Sebrae distingue materiais, mão de obra direta e custos indiretos; declare se trabalha com custo de produção rateado ou com contribuição. No primeiro, não recupere novamente o mesmo gasto no percentual de despesas. Na contribuição, mantenha salários e estrutura fixos separados e inclua os gastos que variam com a venda.

Compare ocupação de forno, tempo de decoração, rendimento e tamanho dos lotes. Um bolo pode deixar mais por unidade e consumir horas que impedem outras encomendas. Em horário ocioso, calcule os gastos adicionais; em capacidade cheia, avalie a contribuição do recurso que limita a produção.

Para personalização, registre acabamento, tamanho, entrega e alterações que mudam custo. Planeje sobras de ingredientes adquiridos para uma encomenda e o uso posterior seguro, sem presumir que receber antecipado elimina perda ou gera lucro imediato.

Uma conciliação para o fechamento

No exemplo do pão, o custo dos cinco quilos destinados a outro produto deve ser transferido ou atribuído por critério declarado. Acrescentar apenas o custo dos três quilos descartados ao pão vendido pode ser uma projeção válida, se o reaproveitamento assume sua parcela; não repita o valor no novo produto e no pão ao mesmo tempo.

Separe também perda normal de cocção, já refletida no peso pronto, de descarte posterior por falta de venda. Se o denominador já é apenas a produção vendável após esse descarte, acrescentá-lo novamente superestima custo. Compare estoque físico e cadastro para resolver diferenças aparentes antes de precificar um desperdício que não ocorreu.

Ao divulgar, observe contribuição dos pedidos adicionais, gasto da campanha e substituição de compras habituais. Melhor imagem ou ticket maior não demonstra retorno sem essas contas.

Perguntas frequentes

Como calcular o preço do pão francês por quilo?

O pão francês deve ser vendido somente por peso. Divida os custos declarados da fornada pelo peso pronto utilizável e projete taxas e contribuição. Concilie vendidos, reaproveitados e descartados, sem duplicar perdas já descontadas do rendimento.

É melhor vender bolo por fatia ou por quilo?

Depende do giro. Por quilo funciona bem para bolos de vitrine com saída alta. Por fatia, padronize peso e apresentação; compare contribuição e aceitação, pois a forma de venda não garante margem maior.

Como colocar a sobra do dia no preço?

Meça por algumas semanas quanto de cada produto sobra e não é reaproveitado. Divida o custo da sobra pela quantidade vendida e some ao custo unitário. É uma estimativa de recuperação da perda, não uma garantia; não repita o descarte já incluído no custo do lote utilizável.

Qual linha de produtos devo divulgar nas redes?

A que combina margem em reais alta, boa foto e produção que você consegue aumentar sem estourar o forno. Compare também demanda, tempo de preparo e capacidade; nenhuma linha é sempre superior.

Fontes consultadas

Taxas, regras de plataformas e normas mudam. Confira sempre a versão atual na fonte oficial antes de decidir.

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