Precificação

Precificação de restaurante: método passo a passo para formar o preço

Por Germano Souza · Bunker Foods
Publicado em · atualizado em · 7 min de leitura

Para formar o preço de um prato, some o custo direto (ingredientes e embalagem) e aplique um markup que cubra imposto, taxas do canal, custo fixo, custo de aquisição de cliente e o lucro que você quer. O detalhe que muita gente esquece: cada canal tem taxas diferentes, então o mesmo prato pode precisar de preços diferentes no salão, no app e no pedido direto. O preço-alvo depende das hipóteses de receita e gastos e precisa ser testado contra demanda e contribuição total.

Confira o multiplicador antes de usar

Um multiplicador copiado não representa automaticamente aluguel, folha, rendimento ou taxa do canal. Uma fórmula precisa dos próprios custos e de uma previsão de vendas para representar a operação.

O Sebrae, ao falar de dark kitchens, em julho de 2024, recomenda entender contrato e impacto das taxas nas margens. Essa orientação não demonstra que todo delivery tenha estrutura menor nem que vender mais gere lucro.

Passo 1: monte a ficha técnica

Para cada prato, liste cada ingrediente, a quantidade usada e o custo daquela quantidade. Inclua o que parece pequeno: óleo, sal, guarnição, molho no pote. Declare peso bruto, líquido e pronto e converta conforme o rendimento. Não aplique perda novamente a uma quantidade já corrigida, nem multiplique peso cozido pelo preço do quilo cru.

Some a embalagem quando o prato sai para viagem. Sachê, guardanapo, talher, sacola e lacre também contam.

Sem ficha técnica, todo o resto é chute. Se ainda não tem, priorize os itens de maior contribuição e consumo, mas não trate uma amostra como todo o cardápio. O artigo sobre CMV aprofunda essa parte.

Passo 2: levante os percentuais sobre a venda

Liste cobranças percentuais e hipóteses de recuperação dos gastos, mantendo bases compatíveis e separando descontos:

Item Como chegar no percentual
Imposto Alíquota efetiva do seu regime, com o contador
Taxa de cartão ou pagamento Contrato da maquininha ou da plataforma
Comissão do app Contrato do plano
Custo fixo Custo fixo mensal dividido pelo faturamento médio
Orçamento de mídia Gasto do período dividido pela receita prevista, como alocação, sem duplicidade
Descontos Receita após descontos financiados pela loja, sem abatê-los novamente
Lucro desejado Decisão sua

Sobre a comissão: o blog oficial do iFood cita 12% no Plano Básico, 23% no Plano Entrega e 3,2% sobre pedidos pagos online, na página pública de planos consultada para esta revisão. Os valores podem variar por região, categoria e condições comerciais; a taxa online depende da forma de pagamento. Use sempre o número do seu contrato.

Passo 3: diferencie divisor e multiplicador

O Sebrae ensina o markup como um índice aplicado sobre o custo. No guia de precificação do Sebrae, a fórmula é:

Divisor = (100 − soma dos percentuais) ÷ 100

Multiplicador = 1 ÷ divisor

Preço-alvo = custo-base ÷ divisor = custo-base × multiplicador

A lógica é que cada percentual incide sobre o preço final, não sobre o custo. Os percentuais precisam da mesma base, e despesas já incluídas no custo-base ficam fora da soma. Rateio de fixos e margem desejada são projeções; a fórmula não garante resultado realizado.

Passo 4: calcule um preço por canal

Aqui o método fica útil de verdade.

Exemplo hipotético: um hambúrguer com custo direto de R$ 14 (R$ 12 de ingredientes e R$ 2 de embalagem).

No salão: sem embalagem de viagem, custo-base de R$ 12. Tributo 6%, cartão 3%, recuperação de fixos 15%, alocação de mídia 3% e meta 10% somam 37%. Divisor 0,63; preço 12÷0,63≈R$ 19,05.

No app, Plano Entrega: imposto 6%, comissão 23%, pagamento online 3,2%, custo fixo 15%, alocação de mídia 5% e lucro 10% somam 62,2%. Divisor 0,378; preço 14÷0,378≈R$ 37,04. Nenhum custo de entrega adicional é suportado pela loja neste cenário.

Esses preços projetam 10% somente se volume, mix e recuperação dos gastos previstos se confirmarem. No app, cobrando R$ 22,22, a contribuição antes de fixos e mídia seria 22,22×0,678−14≈R$ 1,07; cobrando R$ 19,05, seria −R$ 1,08. Preço igual entre canais não prova prejuízo automaticamente: o sinal depende de preço e gastos. Tributos e alocações são hipóteses, não carga tributária universal.

O mercado pode aceitar ou rejeitar o preço-alvo. A decisão então passa a ser: reduzir lucro naquele canal, aceitar menos pedido, ajustar porção ou mudar de plano. O importante é decidir sabendo a conta.

Passo 5: coloque o custo de aquisição na conta

Calcule os gastos de aquisição quando houver anúncio, cupom ou incentivo, sem presumir que toda compra nova demande mídia.

Há duas leituras distintas:

  1. Alocação do orçamento. Divida a mídia pela receita prevista para planejar sua recuperação. Isso não transforma o gasto em variável nem demonstra que toda receita foi gerada pela campanha. Cupom já descontado da receita não deve reaparecer nessa parcela.
  2. Custo por cliente novo. Divida o gasto pelo número de clientes novos. Depois compare com a contribuição das compras adicionais efetivas, descontando retenção e custos extras, dentro de um horizonte definido.

Exemplo hipotético: R$ 1.000 em anúncio trazem 100 clientes novos, ou R$ 10 por cliente. Se cada pedido adicional deixa R$ 5 de contribuição antes de mídia e fixos, são necessárias 200 compras para recuperar R$ 1.000. Com 100 primeiras compras e 50 clientes fazendo só mais um pedido, a contribuição soma R$ 750 e faltam R$ 250. Se os 50 fizerem duas compras extras, a soma chega a R$ 1.000. Isso não demonstra recompra futura, nem lucro líquido, e pressupõe que todos os pedidos são adicionais.

Pedido direto pode ter taxas de pagamento, tecnologia e entrega, com demanda orgânica ou paga. Não presuma comissão ou mídia sempre menor; apure gastos e contribuição da operação real. Veja a comparação de canais em como vender mais no iFood.

Passo 6: confira com o mercado e com o cardápio

Preço calculado não é preço final. Compare com concorrentes parecidos na mesma região e no mesmo app. Se o seu ficou muito acima, procure onde ajustar antes de baixar a margem:

Depois revise o cardápio inteiro. Itens com margem baixa podem ficar, desde que estejam lá por um motivo (atrair pedido, compor combo) e não por esquecimento.

Passo 7: revise com frequência

Insumos e taxas podem mudar; a incidência tributária também precisa de conferência conforme regime e operação. Uma planilha com ficha técnica e percentuais por canal permite recalcular os itens afetados, desde que unidades, receitas e bases estejam corretas. Revise sempre que um insumo importante subir e faça uma revisão completa a cada trimestre.

Mantenha também um registro simples das mudanças: data, item, preço antigo, preço novo e motivo. Quando as vendas de um prato caírem, você consegue ver se a queda veio depois de um reajuste ou de outra causa. Sem esse histórico, a tendência é culpar o preço por tudo e voltar a baixar sem necessidade.

A reação ao reajuste precisa ser observada na sua operação. Compare contribuição total, volume e mix em períodos compatíveis, incluindo calendário, promoções e disponibilidade; não atribua toda mudança ao preço.

Preço e contribuição precisam de revisão conjunta com os gastos do período. Venda com contribuição negativa piora o resultado desse modelo; contribuição positiva ainda pode ser insuficiente para toda a estrutura.

Faça o preço-alvo passar pelo fechamento

Calcule contribuição de cada produto e canal pelo preço realizado e pelos gastos variáveis correspondentes. Multiplique pela quantidade vendida, some os itens e subtraia os gastos do período uma única vez. A meta de lucro do markup não é uma despesa real a descontar no demonstrativo.

Confronte a receita prevista com a observada. Uma parcela de fixos calculada num mês forte pode deixar recuperação insuficiente quando a demanda cai. Teste um cenário de menor volume e confira custos que crescem por etapas, como nova equipe ou forno.

No estoque, concilie compras recebidas, preparações disponíveis, consumo interno e descarte registrado. Atualizar preço de insumo ajuda a planejar; comparar resultado passado exige custos e receita do mesmo período. Separe perda física de erro aparente de unidade antes de subir preço por uma divergência ainda não explicada.

Perguntas frequentes

Qual a fórmula mais usada para precificar prato?

No modelo de markup, o preço-alvo é o custo-base dividido pela parcela restante após percentuais de gastos e resultado desejado. Use percentuais em decimal e soma abaixo de um; receita, gastos e demanda previstos precisam se realizar para recuperar a estrutura.

O preço no iFood pode ser diferente do salão?

Custos distintos podem justificar preços diferentes, mas confira as regras comerciais do contrato e a contribuição de cada canal. Pagamento, embalagem e logística também mudam a conta; preço igual não implica sempre prejuízo.

Como incluir o gasto com anúncio no preço?

Orçamento mensal de mídia é gasto do período. Pode ser alocado numa projeção de preço, sem duplicar o gasto, mas o retorno exige comparar contribuição das vendas adicionais e custo da campanha, além dos pedidos atribuídos.

De quanto em quanto tempo devo revisar os preços?

Sempre que o custo de um insumo importante mudar ou a taxa de um canal mudar. Uma revisão completa a cada trimestre ajuda a não acumular defasagem.

Fontes consultadas

Taxas, regras de plataformas e normas mudam. Confira sempre a versão atual na fonte oficial antes de decidir.

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