Precificação
Markup para restaurante: fórmula, exemplo e erros comuns
Markup é o número pelo qual você multiplica o custo de um prato para chegar ao preço de venda. Uma forma de projetar esse número é usar o inverso da parcela do preço que resta para o custo-base, depois dos percentuais de gastos e resultado desejado. Esse inverso é o markup multiplicador; o divisor é a parcela restante. As hipóteses podem mudar por canal e precisam ser verificadas antes de adotar o preço.
O que é markup e o que ele não é
O guia de precificação do Sebrae descreve o markup como o método mais tradicional de formar preço: o empresário multiplica o custo de produção por uma taxa de marcação. O mesmo material alerta que muita gente estima esse número pelo que vê no mercado, em vez de calcular o próprio.
Copiar um multiplicador sem conferir o custo-base e os gastos cria uma projeção sem fundamento. Estruturas de aluguel, folha, tributos e mix de canais podem exigir cenários diferentes.
Markup também não é margem. O multiplicador compara preço com custo-base; o acréscimo percentual compara a diferença entre ambos com esse custo. A margem usa o preço como denominador. Declare a convenção para não confundir multiplicador, acréscimo e lucro líquido.
Divisor e multiplicador na mesma conta
Você precisa de uma base em reais e de percentuais compatíveis com a receita prevista:
- Despesas variáveis de venda: imposto sobre faturamento, taxa de cartão ou de pagamento online, comissão de plataforma.
- Despesas fixas: aluguel, folha, contador, energia fixa, sistemas. Divida os gastos ainda não incluídos no custo-base pela receita prevista para o mesmo período. O percentual é uma hipótese de recuperação, não o comportamento variável do aluguel.
- Lucro desejado: o que você quer que sobre.
- Custo do prato: vem da ficha técnica, em reais. Não entra no percentual, é o número que vai ser multiplicado.
Com isso:
Divisor = (100 − variáveis − fixas − margem desejada) ÷ 100
Multiplicador = 1 ÷ divisor = 100 ÷ (100 − variáveis − fixas − margem desejada)
Preço-alvo = custo-base ÷ divisor = custo-base × multiplicador
A divisão recupera os percentuais definidos sobre o preço dentro da simulação. Ela não garante lucro realizado: quantidade vendida, mix, gasto fixo e descontos podem divergir da previsão. Não inclua novamente despesas que já estejam no custo-base. Para chegar no custo do prato com precisão, a ficha técnica é a base, como lembra a cartilha de CMV da Abrasel. O cálculo completo está no guia de CMV do restaurante.
Markup diferente por canal de venda
Aqui está o ponto central. O mesmo hambúrguer custa coisas diferentes dependendo de onde é vendido.
- Salão: confira insumos, pagamento e tributos; atendimento e estrutura podem ter parcelas fixas e gastos adicionais por capacidade.
- Canal próprio (WhatsApp, site): tem embalagem, taxa de pagamento, logística suportada e gastos da operação. Publicidade mensal é orçamento do período; alocação por pedido precisa de hipótese explícita e não deve ser repetida nas fixas.
- iFood: tem embalagem e a comissão do plano. Segundo a página de taxas do iFood para parceiros, o Plano Básico soma 12% de comissão e 3,2% de taxa de pagamento online, e o Plano Entrega pode chegar a 26,2%. São referências da atualização pública de 23/06/2026, com 3,2% apenas para pagamento online. Região, categoria e contrato podem mudar os encargos; confira sua base e evite duplicar taxa de maquininha com a taxa online quando não forem ambas devidas. O detalhe dos planos está em taxas do iFood: Plano Básico e Plano Entrega.
Um multiplicador único pode ser uma decisão comercial, desde que as contribuições por canal e o resultado consolidado sejam conhecidos. Custos distintos não impõem automaticamente três preços.
Exemplo hipotético: um hambúrguer custa R$ 12 de insumos. No delivery, a embalagem acrescenta R$ 2, então o custo vira R$ 14. A casa supõe 6% de tributo, 25% de recuperação dos gastos fixos e resultado de 10% da receita. Percentuais, entrega sem custo adicional para a loja e volume são hipóteses; a embalagem não inclui taxas percentuais.
Salão: imposto 6% + cartão 3% + fixas 25% + lucro 10% = 44%. Multiplicador = 100 ÷ 56≈ 1,785714. Preço-alvo= 12 ÷ 0,56≈ R$ 21,43.
Canal próprio: imposto 6% + pagamento 3% + marketing 5% + fixas 25% + lucro 10% = 49%. Multiplicador= 100 ÷ 51≈ 1,960784. Preço-alvo= 14 ÷ 0,51≈ R$ 27,45. Os 5% de marketing são alocação hipotética do orçamento, excluída dos 25% de fixos, não taxa obrigatória por venda.
iFood Plano Básico: imposto 6% + 15,2% de comissão e pagamento + fixas 25% + lucro 10% = 56,2%. Multiplicador= 100 ÷ 43,8≈ 2,283105. Preço-alvo= 14 ÷ 0,438≈ R$ 31,96.
Os preços projetam a mesma margem somente sob essas hipóteses, antes dos pequenos efeitos de arredondamento. Cobrar R$ 27,50 no cenário Básico deixa 27,50×(1−0,212)− 14 = R$ 7,67 de contribuição; após a recuperação suposta de 25% do preço, restam R$ 0,795, cerca de 2,89%, em vez de 10%. Isso é projeção, não lucro apurado.
Isso não quer dizer que você precisa repassar toda a diferença ao cliente do app. Às vezes o mercado não aceita. Mas aí a decisão é consciente: você sabe quanto está abrindo mão de margem em cada canal e pode compensar com outro item ou com combo.
Passo a passo para calcular o seu markup
- Levante as despesas fixas do mês e divida pelo faturamento médio. Use período representativo da sazonalidade e teste também uma receita menor; uma janela de três meses é opção gerencial, não regra universal.
- Liste as despesas variáveis de cada canal: imposto, taxa de pagamento, comissão, custo de anúncio por pedido se houver.
- Defina o lucro desejado. Seja realista. Um número que nenhum prato alcança não ajuda.
- Calcule um markup para cada canal.
- Pegue o custo de cada prato na ficha técnica, somando embalagem quando for delivery.
- Multiplique e compare com o preço atual e com a concorrência.
- Revise sempre que mudar insumo, imposto, plano de plataforma ou aluguel.
Erros comuns com markup
Usar markup de mercado. O número do vizinho reflete a estrutura do vizinho.
Chamar acréscimo sobre custo de margem sobre preço. Os denominadores são diferentes. Confira o resultado projetado subtraindo cada gasto do preço-alvo, sem presumir que o acréscimo inteiro seja lucro.
Esquecer a embalagem no delivery. Ela é custo direto do pedido, não despesa geral.
Despesas fixas sobre o melhor mês. O percentual fica baixo, o markup fica baixo, e nos meses fracos a conta não fecha.
Aplicar o mesmo markup a todo o cardápio. Bebida, sobremesa e prato principal têm papéis diferentes. O markup dá um preço-alvo condicionado ao cenário, sem estabelecer um piso legal ou garantia de saúde financeira. A decisão final olha também a precificação do cardápio como um todo.
Não revisar. Insumo sobe todo mês. Markup calculado há um ano sobre custo de um ano atrás é ficção.
Markup é ponto de partida
O markup responde a uma pergunta: quanto preciso cobrar para pagar tudo e ter o lucro que quero? Ele não responde se o cliente vai pagar. Quando o preço calculado fica muito acima do que o mercado aceita, a saída não é baixar o markup no grito. É olhar o custo do prato, a porção, a embalagem e, às vezes, o canal onde aquele produto vale a pena ser vendido.
Quando a fórmula deixa de funcionar
A soma dos percentuais precisa ficar abaixo de cem. Com divisor zero, a divisão não existe; com divisor negativo, o preço negativo não é uma solução comercial. Perto de zero, pequenas alterações nas hipóteses provocam grandes mudanças no preço-alvo. Não corrija esse problema escolhendo um multiplicador arbitrário: reveja estrutura, custo-base, meta e receita prevista.
Se uma comissão incide sobre o pedido e um tributo sobre outra base, calcule cada parcela em reais ou adapte o modelo. Taxa fixa por pedido pertence ao custo-base desse pedido, não pode ser somada diretamente a um percentual. Embalagem compartilhada e entrega precisam representar a composição real do pedido.
Custo-base com salários e estrutura rateados exige excluir essas mesmas parcelas do percentual de fixos. Se a base tiver só ingredientes, os gastos que ainda faltam precisam aparecer no cenário. Documente esse mapa antes de comparar markups entre restaurantes.
Confira a projeção no fechamento
Recalcule a contribuição efetiva pelo preço realizado depois dos descontos, com os encargos contratados. Multiplique pelas quantidades vendidas e subtraia os gastos do período uma única vez. Essa conferência testa se o mix recuperou a estrutura prevista; ela é mais útil do que supor um lucro igual para todos os pratos.
Um preço-alvo pode exceder o que o público aceita. Compare alternativas de receita, fornecedor por rendimento aproveitado, composição do pedido e capacidade. Se reduzir o preço, mostre qual resultado passa a ser projetado; a conta não desaparece porque o concorrente cobra menos.
Perguntas frequentes
Qual é a fórmula do markup para restaurante?
Markup multiplicador = 100 dividido por (100 menos a soma dos percentuais de despesas variáveis, despesas fixas e lucro desejado). O preço de venda é o custo do prato multiplicado por esse número.
Posso usar o mesmo markup no salão e no iFood?
Pode usar se conhecer a contribuição de cada canal e o resultado do mix. Não presuma custos iguais; confira comissão, embalagem, pagamento e logística.
Markup 3 significa lucro de 300%?
Markup 3 quer dizer que o preço é três vezes o custo do prato. Desse preço ainda saem impostos, taxas, despesas fixas e só depois o lucro.
O markup substitui a análise de concorrência?
Não. O markup mostra um preço-alvo sob hipóteses de gastos e vendas. Se o mercado não aceita esse preço, o caminho é rever custo, porção ou o próprio prato.
Fontes consultadas
- Sebrae: Guia prático de precificação para os pequenos negócios
- iFood Parceiros: Taxas do iFood para restaurante, planos e comissões
- Abrasel: Cartilha CMV, Custo de Mercadoria Vendida
Taxas, regras de plataformas e normas mudam. Confira sempre a versão atual na fonte oficial antes de decidir.